DA ÁSIA CENTRAL – 1ª PARTE

No estudo da transferência de elementos arquitetônicos árabe-islâmico dos séculos VII ao XIV em direção da Ásia Central para Oriente, a grande migração árabe naqueles séculos exportou os modelos arquitetônicos para solidificar com uma nova estrutura cultural, religiosa, econômica e social os povos já presentes naqueles vastos territórios, existindo uma fragmentação sociocultural existente em diferentes tribos e impérios que sucumbiram aos novos códigos.

A arquitetura foi um marco indelével de coesão nessa atuação dos os árabes e os novos povos mesmo que tivessem ficado de fato pouco tempo como ocupantes dessas regiões, mas deixando uma presença marcante transformando a paisagem cidades, comercial, suk ou mercados, kharavansaray, maracás, mausoléu, hospitais entre outros mais que a paisagem rural.

Uma das manifestações mais contundentes da arquitetura nesta dinastia, pelo aspecto decorativo, foi a cobertura das cúpulas das mesquitas com azulejos coloridos nas cores azul e verde e que foram absorvidos como características indeléveis da arquitetura islâmica, nos países arabizados e islamizados da Ásia Central. A dinastia dos Kharakhanidas foi a última população Turca da história da Ásia Central a se converter ao Islamismo.

A grande migração árabe em direção do Oriente depois ter solidificado a presença para sempre nos território da Síria com capital Damasco, saindo do Oriente Médio ou da Meia Lua Fértil, como era apelidada, direcionou-se numa conquista dos territórios do atual Iraque, Irã, Uzbequistão entre os primeiros dos outros países da região, a partir do ano 637 d.C. depois da morte de Maomé de 632 d.C.

O modelo da nova cultura arquitetônica foi facilmente e amplamente disseminada mesmo que ainda de forma muito similar a original, vindo com a nova migração que era o modelo mais desenvolvido daquele período histórico.

A parte mais importante das manifestações arquitetônicas de influência árabe-islâmica e pré-islâmica conservada hoje encontra-se no Irã e no Uzbequistão mesmo que os países que compõem a área geográfica definida como Ásia Central, são mais numerosos.

Nestes outros países, menos testemunhas arquitetônicas restam de pé e conservadas, depois das grandes invasões, e da destruição ainda da época de Gengis Khan e nos séculos seguintes das ocupações russo-soviéticas nas quais só algumas construções mais importantes do ponto de vista histórico foram resguardadas.

O período do império dos Grandes Seldjúcidas, expandido desde Ásia até o Mediterrâneo, entre os séculos X e XIII, pode ser considerado como o tempo da construção original da arquitetura nas suas manifestações tipológicas e temporais, mais clássicas da Ásia Central. Esta importância se dava pela sua grande coerência harmônica entre o equilibro das formas e da decoração que resultava em uma expressão de grande refinada grandiosidade destas. Neste período o império Seldjúcida incluía a Transoxiana até o Irã, o Califado ainda árabe de Bagdá, chegando até o Mediterrâneo na atual Turquia.

São deste período o uso arquitetônico e decorativo dos tijolos depois o grande uso do adobe, praticamente terra do deserto misturada a erva seca ou não a causa da sua pouca existência do clima desértico.

O tijolo secado ao sol mais tarde cozido e usado não só para a construção, mas para escrever versos do Alcorão nas fachadas, elementos decorativos esculpidos e recortados nos tijolos, que em um segundo tempo é enriquecido de inscrições em azul turquesa, de amarelo como a terra do deserto, de azulejos mais refinados, de pinturas e de estuques muito coloridos.

Paralelamente aos Seldjúcidas os Kharakhanidas, mongóis que ocupavam os territórios hoje do Uzbequistão, construíram cidades que eram verdadeiros monumentos como Samarkhanda e Boukhara, mas todos com a influência dos elementos árabes da arquitetura, da religião e da formação de uma nova civilização e estrutura social na Ásia Central.

Por sua vez os elementos da arquitetura da antiga Pérsia, antes dos Seldjúcida, a mais original, e Safávida posteriormente, se impuseram nos outros territórios da Ásia Central até a Índia do Norte.

Além das influências árabes mais tarde se enriqueceram com influências dos elementos da antiga religião persa do zoroastrismo e dos elementos arquitetônicos do anterior império Sassánida.

Depois do período de dominação direta árabe de 642 a 1051 d.C., que influenciou a arquitetura com traços basicamente religiosos nas construções. A partir do século IX verificou-se uma introdução de elementos estruturais locais da cultura arquitetônica Persa. Esta foi renovada com elementos como; o grande arco de ângulo mais agudo, iwan, nas entradas das Mesquitas e Madraças, a riqueza das muqarnas, agora não só como elementos decorativos, mas que permitem e acompanham a modificação estrutural das mudanças dos planos entre as paredes, os ângulos e a cúpula muito mais monumental.

Apoiando-se em novas técnicas construtivas, foram introduzidas as cúpulas de estrutura dupla uma interna mais estrutural e uma externa mais ricamente decorada e leve como um casco sendo que a caligrafia de tema religioso vira a base da decoração das mesquitas e os particulares da específica arquitetura dos minaretes, das tumbas, mausoléus pela influência do Zoroastrismo.

É no período do Império Timúrida entre 1380 e 1502 que foram aperfeiçoados os estilos da arquitetura Seldjúcida e Mongol. A arquitetura do período Timúrida é caracterizada pela presença de cores vivas bem marcantes em harmonia com a estrutura arquitetônica, como se os dois elementos fizessem parte intrínseca entre estrutura e decoração.

Assim como nos palácios de grandes dimensões onde as grandes superfícies das paredes eram liberadas pelo uso de azulejos translúcidos os claustros internos com arcadas dispostos em volta dos pátios internos dos palácios, as galerias e corredores com arcos construídos internamente a outros arcos menores representam a mais importante arquitetura Timúrida.

Com relação à arquitetura ao longo do percurso da Rota da Seda, essa mudou variadas vezes dependendo dos períodos históricos desde quando se conheceu a possibilidade de comércio com o extremo oriente a partir do ano 100 a.C. e que atualmente segue um percurso diferente, mas paralelo ao original por causa das novas redefinições territoriais da época moderna.

Toda a rota mais usada e conhecida tem uma distância de 8000 km. A Rota, qualquer fosse a mudança de percurso, não era na prática uma única linha contínua, mas uma série de percursos mais fáceis para as caravanas de camelos e homens viajantes, que atravessava os diversos países, dirigindo-se tanto por montanhas altíssimas com neve perene quanto nos desertos, paisagens que até hoje não mudaram muito.

Essa rota ajudou a transportar, além das mercadorias, também ideias misturando-as nas diferentes culturas através dos povos conhecidos nas diferentes épocas desde a Europa até a China e vice-versa, que contribuíram para um desenvolvimento globalizado dos períodos históricos analisados nesse texto.

DO UZBEQUISTÃO

“A Urgench, capital da Orda de Ouro região do Khearizm e maior empório das terras férteis do Rio Amu Darja, o bazar era totalmente cheio de mercadores de vários lugares e povos e não consegui atravessa-lo de cavalo, foi obrigado a voltar na Sexta Feira de Reza quando a maioria das lojas eram fechadas, e set acontecia numa cidade que Gengis Khan tinha completamente inundado e destruída abrindo a diga do rio”

Ibn Batuta in Ross E. Dunn, 1993.

Com cidades como Samarkhanda e Boukhara, entre outras conhecidas desde a antiguidade como Merv e Khona Urgench, sendo que estas últimas duas fazem parte atualmente do Turcomenistão, ao longo da Estrada da Seda, o atual território do Uzbequistão foi sempre cobiçado por muitos povos desde o Sassánidas.

Os Samanidas, anterior ao, foram os primeiros a ser ocupados pela expansão árabe-islâmica pela qual se converteram, mas de fato exerceram uma mediação entre o antigo mundo zoroastriano e o novo islâmico.

Esse movimento se reflete na adequação da arquitetura, sobretudo nos palácios, pois ainda os povos originais dos desertos da Ásia Central eram de culturas nômades e as cidades eram o palácio do Rei, que não se fixava nas regiões urbanas se não em algumas épocas do ano, e que, portanto, começavam a ficar semissedentários.

Os povos que ficaram muito mais Islamizados, depois da ocupação árabe concluída por volta de 750, e que construíram uma sequência de impérios com uma estrutura urbana de poder político, religioso islâmico e comercial organizado economicamente foram os Grandes Seldjúcidas. Estes faziam parte de um povo maior de organização de tribos do Oghuz, povos turcos, assim como os Goridas, Ghaznavidas e Kharakhanidas sempre de origem turca entre outros que dividiram o império entre eles e se fixaram no atual Uzbequistão.

Os Seldjúcidas foram os primeiros grandes arquitetos que deixaram um marco nas construções já da tipologia da nova cultura islâmica com mesquitas, mas, sobretudo a estrutura comercial dos kharavansaray, dos mercados urbanos, apoiados nas urbanizações de núcleos habitados de forma sedentária para serviços de apoio ao longo da Rota da Seda, com palácios de representações política e religiosa. Pouco resta das construções do período Seldjúcidas de tipologia e influência já islâmica na Ásia Central no Uzbequistão.

Por volta de 1200 começou o grande movimento de populações mongóis descendo do extremo Norte gelado da Mongólia e Sibéria na maioria dos Montes Altai. Depois as grandes hordas de Gengis Khan, em seguida de Hulagu Khan e Tamer Lang ou Tamerlão, que invadiram e provocaram grandes e definitivas destruições.

Os Ilkhanidas iniciaram primeiramente a reconstrução quando ocuparam  a Ásia Central até o território da atual Turquia se islamizaram, adotando a nova religião. A religião serviu como base de um processo de aculturação também econômica e comercial sustentada por um potente exército muito bem organizado e aramado que permitia conquistas contínuas ao longo de muitos anos divulgando o islã e enriquecendo a cultura e a arquitetura visível ainda hoje.

Se no período dos Grandes Seldjúcidas o marco do império foram as construções com grande impulso, sobretudo os kharavansaray no período da Dinastia Timuirde, iniciado com Tamerlão nos vastos territórios do atual Uzbequistão, foram reconstruídos de forma grandiosa, e isso é observado através das Mesquitas e das Madraças em grandes quantidades para dar imponência e importância à nova estratégia de poder.  Isto acontecia com a solidificação dos centros urbanos e das cidades como Samarkhanda e Boukhara, por exemplo, que nestas dinastias foram base da cultura que florescia de todas as formas, além da arquitetura mundial da época como importantes capitais.

As capitais dos impérios que se sucederam foram Samarkhanda, Boukhara e Khiva onde se encontram os diferentes resultados da arquitetura dependendo das dinastias das cidades.

Samarkhanda é uma cidade considerada entre as mais antigas da terra, em um oásis de Zarafshan no meio de dois rios, com uma história de 2500 anos é considerada a irmã de Roma da Ásia Central.

Entre os séculos VII e VIII a população deste território de Samarkhanda foi ocupada pelos árabes sendo que as populações abraçaram neste período o Islamismo.

No século X a dinastia Samanida inclui estes territórios e a cidade de Samarkhanda no Império. Nos séculos seguintes X e XI esta região fazia já parte do Império dos Grandes Seldjúcidas e da Dinastia vassala dos Kharakhanidas no século XI.

Personagens conhecidos também na história ocidental fundaram impérios com esta mesma capital ao longo dos milênios com as diferentes dinastias; Alessandro Magno, os sultões mongóis Sandjar e Gengis Khan, Tamerlão, que no período do seu reinado foi capital do mundo civilizado conhecido e Ulughbek, entre o X e XVI séculos e depois os Khanatos de Bakha Ad-Din Nakshaband e Babur.

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